Escola Base: uma reflexão

O sensacionalismo é utilizado como uma estratégia para aumentar a audiência dos jornais e consequentemente os lucros das grandes emissoras. Uma notícia contada com manipulação dos fatos para garantir um furo de reportagem pode acabar com vidas, esse assunto é muito sério. Em 1994 duas mães de alunos acusaram uma escola infantil de abuso sexual e com base nas investigações preliminares do delegado, a imprensa julgou sumariamente os donos da escola e a opinião pública, por sua vez, condenou-os sem provas, estamos falando da Escola Base.

A escola foi pichada, depredada e saqueada. Os acusados foram presos. O jornal Folha da Manhã usou uma manchete escandalosa e sensacionalista que extrapolou a liberdade de informar e não resguardou sequer a honra moral de uma criança de quatro anos. A empresa foi condenada a pagar indenização de R$ 200 mil para R.F.N, o garoto, que hoje tem 18 anos. Ele foi apontado pelo jornal como vítima de abuso sexual dos próprios pais. Ele é filho de um dos casais acusados sem provas no caso da Escola Base. Outras empresas de comunicação sofreram condenação pelas notícias divulgadas à época dos fatos, em 1994. É o caso dos jornais Folha de S.Paulo (R$ 750 mil) e O Estado de S.Paulo (R$ 750 mil), da Globo (R$ 1,35 milhão) e da Editora Três, responsável pela publicação da revista IstoÉ, (R$ 360 mil). Em todos os casos ainda cabe recurso (NUNES, 2008, online).

Essa notícia divulgada sem escutar todos os envolvidos provocou danos irreparáveis e irreversíveis na vida das pessoas que foram condenadas injustamente pela sociedade e pela imprensa da época. Provando que as grandes emissoras de rádio e TV tem poder de persuadir a opinião das pessoas, que alienadas acreditam em tudo como uma verdade única e começam a julgar sem escutar outras versões dos fatos. Valmir Salaro, que hoje é repórter do fantástico, programa dominical que consta na grade da Rede Globo, foi um dos responsáveis por essa tragédia.

Ele afirma que essa notícia é uma ferida aberta, que já virou cicatriz, mas que está presente. Quando tem esses debates, jornalistas e colegas que estão começando procuram ele para falar justamente sobre esse tema. Ele acredita que tem o dever de falar. Muitos colegas na redação lembram que o erro não foi só dele, mas Salaro sempre diz que cometeu um erro e que tem o dever de assumir. Ele também afirma que os profissionais mais jovens podem pegar como exemplo e evitar erros no futuro, evitar acreditar fielmente em laudos, delegados, promotores. Tem que desconfiar sempre, esse é o segredo. O repórter não deve ficar só no depoimento de uma pessoa. Ele é obrigado a ouvir o advogado de defesa, o promotor do caso e apresentar as provas que tem contra essa pessoa (CARVALHO, 2013).

O caso da Escola Base foi primordial para a atualização do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros em 2007. Se esse episódio tivesse acontecido nos dias de hoje, analisando o comportamento dos jornalistas, podemos encontrar violações do código, como (FENAJ, 2007, online):

  • Art. 2º A divulgação de informação, precisa e correta, é dever dos meios de comunicação pública, independente da natureza de sua propriedade.

  • Art. 7º O compromisso fundamental do jornalista é com a verdade dos fatos, e seu trabalho se pauta pela precisa apuração dos acontecimentos e sua correta divulgação.

  • Art. 9º É dever do jornalista: f) Combater e denunciar todas as formas de corrupção, em especial quando exercida com o objetivo de controlar a informação. g) Respeitar o direito à privacidade do cidadão.

  • Art. 14º O jornalista deve: a) Ouvir sempre, antes da divulgação dos fatos, todas as pessoas objeto de acusações não comprovadas, feitas por terceiros e não suficientemente demonstradas ou verificadas. b) Tratar com respeito a todas as pessoas mencionadas nas informações que divulgar.

  • Art. 15º O jornalista deve permitir o direito de resposta às pessoas envolvidas ou mencionadas em sua matéria, quando ficar demonstrada a existência de equívocos ou incorreções.

A história da Escola Base foi contada levando em consideração apenas as palavras do delegado, sem escutar todos os envolvidos, em especial os acusados, jornalistas agiram sem ética, pensando apenas no sucesso e fama, os donos dos grandes meios de comunicação do país pensavam somente nos lucros e na audiência.

A vaidade de um policial, a pressa e despreparo dos jornalistas e o corre-corre dos veículos de comunicação, todos esses fatores se somaram para compor um cenário de tragédia para as pessoas acusadas de um crime que sequer aconteceu. Os exames de perícia não encontraram vestígios de violência sexual nos alunos da Escola Base. As suspeitas das mães de que havia algo errado desmancharam-se no ar. Mas o grande carnaval já estava montado e os pré-julgamentos já tinham produzido culpados (CHRISTOFOLETTI, 2008, p. 19 apud VOLTOLINI, 2018, P. 12).

O resumo deste caso foram famílias devastadas, cujos sonhos tornaram-se pó, dividas financeiras, divórcios, depressão, medo de sair na rua, ou seja, eles foram inocentados, mas não receberam a indenização por parte da imprensa e do governo, bem como nunca mais puderam retomar de fato suas vidas. Esse caso serve de lição para que os jornalistas sigam o código de ética e façam um trabalho bem feito, em prol da sociedade e de maneira positiva, ou seja, que apresentem os fatos comprovados e corretos, que escutem todos os envolvidos, e principalmente, que pensem nas consequências que uma notícia mal divulgada pode provocar na vida das pessoas.

 

Referências

AQUINO, Bel. BAYER, Diego. Caso da Escola Base, Aclimação, São Paulo (1994). Disponível em: http://www.justificando.com/2014/12/10/da-serie-julgamentos-historicos-escola-base-a-condenacao-que-nao-veio-pelo-judiciario. Acesso em: 11 nov. 2018.

CARVALHO, Nathália. Escola Base: “Tenho o dever de assumir o erro”. Disponível em: http://observatoriodaimprensa.com.br/feitos-desfeitas/_ed745_escola_base__tenho_o_dever_de_assumir_o_erro. Acesso em: 11 nov. 2018.

FENAJ. Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros. Disponível em: http://fenaj.org.br/codigo-de-etica-dos-jornalistas-brasileiros-19852007. Acesso em: 11 nov. 2018.

NUNES, Léticia. Grupo Folha condenado no caso Escola Base. Disponível em: http://observatoriodaimprensa.com.br/interesse%20publico/grupo_folha_condenado_no_caso_escola_base. Acesso em: 11 nov. 2018.

VOLTOLINI, Ana G. M. F. F. Legislação e ética no jornalismo. Maringá: Uningá, 2018.

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